10 de março de 2025
Em minha última segunda feira na República Tcheca, aproveitamos o p-day para um desvio da familiar Namesti Republiky. Eu, Sister Evans, Sister Yost, Élder Liddicott e Élder Walker fomos para Karlovy-Vary, uma pequena cidade a pouco menos de 2 horas de distância de Plzeň, conhecida pelas suas fontes termais e canecas divertidas.
Combinamos que iríamos às 09:00. Me encontrei com as meninas no ponto alguns poucos minutos antes, mas não havia nem sinal dos meninos. Tentamos ligar, sem sucesso. Quando o ônibus chegou — com uma pontualidade surpreendente — e estávamos prestes a embarcar, já sem esperança de que eles chegariam a tempo, os vimos virar a esquina correndo, vermelhos e sem ar. Nos contaram depois que haviam se perdido. Passamos os primeiros 10 minutos do trajeto rindo, ainda sem acreditar que eles haviam conseguido, e animados pelo dia que nos esperava.

No instante em que coloquei os pés em Karlovy Vary, me apaixonei. O dia estava ensolarado, com uma temperatura deliciosamente agradável — nem fria o suficiente para que eu precisássemos usar casaco, mas nem quente o suficiente para nos fazer suar. E a cidade… a cidade era linda. Colorida, verdejante (ainda que no inverno), e com um certo charme bem-humorado. Embora, pensando bem, talvez essa última qualidade deva ser creditada à minha companhia.

Conheci os missionários — meus amigos — no meu primeiro domingo em Plzeň, dois meses antes. Eu não tinha a menor pretensão de ir à Igreja naquele dia — e nem em nenhum outro, para ser completamente honesta. Quero dizer: eu não conhecia ninguém ali, e não entendia nem uma única palavra de tcheco. De que serviria me reunir para congregar se eu nem sequer poderia me comunicar com as pessoas ao meu redor?
Ainda assim, naquela manhã, acordei com um sentimento muito forte. O Espírito me dizia para ir, e não hesitei. Pensei que poderia, ao menos, tomar o sacramento; iria embora depois.
É de se imaginar que não foi o que aconteceu.
Fui recebida com boas vindas calorosas no mesmo momento em que atravessei a porta do pequeno prédio adaptado em capela. Sister Konushin — à época dupla de Sister Evans, e que viria a se tornar uma grande amiga — me cumprimentou com um abraço carinhoso. Nos apresentamos, e logo Sister Evans se aproximou e se apresentou também. Quando a reunião começou, sentei ao seu lado. Ela traduziu tudo para mim e para um visitante romeno ao mesmo tempo, com um esforço e paciência admirável.
Durante o intervalo, foi a vez de Élder Liddicott se apresentar. Conversamos um pouco e, quando a segunda hora começou, sentamos novamente, ele atrás de mim. Havia perdido Sister Evans, minha gentil tradutora, de vista e, já prestes a me levantar para ir embora, senti um cutucão em meu ombro. Ele perguntou se eu entendia tcheco — ao que respondi com um veemente “não” — e se ofereceu para traduzir a aula para mim.
Ao fim de tudo, Élder Walker também veio me cumprimentar. Mais tímido, mas tão gentil quanto os outros. Reencontrei Sister Konushin e, depois de alguns minutos de conversa animada, ela me convidou para almoçar com eles no dia seguinte. Aquele almoço se tornaria não apenas o primeiro de muitos p-days juntos; mas também o começo de muitos jantares na casa dos Hamons, kebabs, noites de jogos de sábado na capela, lições, passeios turísticos e, claro, manhãs de domingo — às quais não faltei uma única vez durante todo o meu intercâmbio.
Havia, portanto, algo especial naquele dia em Karlovy Vary. Talvez fosse o sol, talvez a companhia.
Começamos a caminhar pela cidade sem um rumo definido. Admirávamos seus prédios — todos com aquele charme europeu tão característico — enquanto falávamos sobre quais elementos gostaríamos de incorporar em nossas futuras casas. Entramos em algumas lojinhas de souvenir, empenhados na missão de encontrar o cartão postal perfeito para a minha coleção. Observávamos a vida tranquila daquele lugar, conversando sobre tudo, rindo muito.






Paramos para almoçar em um restaurante vietnamita; eu, um pouco contrariada. Nos acomodamos e falamos sobre a minha pesquisa, sobre as nossas casas, nossas famílias, e sobre os choques culturais que cada um enfrentou ao chegar ali. Quando o almoço chegou, estava simplesmente divino.
Passei a gostar de comida vietnamita.
Seguimos a nossa pequena aventura em direção ao bondinho da cidade. No caminho, paramos para beber da água de uma das fontes termais — que horror! —, pegamos figurinhas, entramos numa loja de patinhos de borracha temáticos e compramos waffles. Conversamos sobre tudo. Rimos, e rimos.
Ao embarcar no bondinho, logo percebemos estar no lugar errado.

Deveríamos estar sobrevoando a floresta da cidade. Mas, naquele momento, estávamos subindo por um túnel estreito, escuro e completamente fechado. Descobrimos, enfim, que aquele era algo como um funicular, e desempenhava o mero papel de levar as pessoas a um ponto mais alto da cidade — que, para ser justa, nos rendeu uma bela vista. Mas de modo algum isso nos desanimou. Rimos ainda mais.
Como precisávamos pegar o ônibus de volta para Plzeň em breve e o bondinho “certo” era distante, optamos por apenas caminhar um pouco mais. Terminamos o dia com sorvete e trdelníks, e então seguimos para a estação.
O trajeto de volta foi silencioso. Alguns cochilaram, outros fizeram seus estudos pessoais, outros escreveram e-mails para sua família e amigos.
Eu, no entanto, apenas olhava. Olhava para os meus amigos, sentados do outro lado do corredor, e para a linda paisagem do interior tcheco passando depressa pela janela atrás deles. E sentia saudade.
Saudade porque sabia que, no próximo p-day, já não estaria com eles. Estaria de volta ao Rio, à minha casa. Aquela experiência tão única e especial estaria, muito em breve, chegando ao fim. E, no final daquela semana, eu teria que me despedir dos meus queridos amigos.
Mas, mais do que isso, senti gratidão.
Uma vez, quando Pedro e Iago estavam na missão e eu me sentia sozinha, Pedro me disse que eu estaria sempre protegida pelos melhores anjos que eles poderiam me enviar por meio de suas orações. Mais tarde, entendi que os anjos eram eles mesmos. Eles que, como missionários, não somente espalhavam o amor e a luz do evangelho de Deus em suas áreas, mas também em cada e-mail que me enviavam, em cada oração que me mencionavam.

Eu soube reconhecer, portanto, quando o Senhor colocou novos anjos em minha vida; e me senti imensamente grata por isso.
Aqueles cinco missionários, no interior da República Tcheca, foram anjos que não somente me acolheram: eles me ensinaram, me testificaram, e me deram a chance de fazer o mesmo, fortalecendo o meu próprio testemunho no processo.
Esses anjos, com o amor e a luz que carregavam e irradiavam, me ajudaram a me aproximar do meu Salvador.
Hoje, entendo plenamente quando um converso sobe ao púlpito e agradece pelo trabalho missionário.
Para ser completamente honesta, aquele dia em Karlovy Vary foi, à sua maneira, uma experiência turística completamente comum.
E, no entanto, foi um dos dias mais cheios de sentido que já vivi.
Sua beleza esteve nos detalhes: nos risos leves, no carinho partilhado, na certeza silenciosa de que eu estava sendo cuidada — não só por amigos, mas por anjos enviados por um Pai Celeste que me ama e me ouve.
Foi um daqueles dias que passam quase despercebidos quando vividos, mas que, ao serem revisitados, se revelam imensos.
Um daqueles dias que se tornam eternos.

![[entre]linhas e retratos](https://entrelinhaseretratos.com/wp-content/uploads/2025/05/cropped-tulipa-alala.jpg)
